Este artigo analisa criticamente o papel da inteligência artificial (IA) na formulação e implementação de políticas de saúde pública no Brasil, com ênfase nos riscos e potencialidades éticas, sociais e técnicas associados ao uso de algoritmos em contextos desiguais. A partir de uma revisão sistemática da literatura interdisciplinar — abrangendo áreas como saúde coletiva, ciência da computação, ética algorítmica e políticas públicas — investigam-se os vieses presentes em sistemas de IA treinados com dados historicamente desbalanceados em termos de raça, gênero, classe e acesso à saúde. Os resultados indicam que, embora a IA possa otimizar diagnósticos, alocação de recursos e vigilância epidemiológica, sua aplicação sem governança democrática e critérios antirracistas e feministas tende a reproduzir e aprofundar desigualdades estruturais. Conclui-se pela necessidade urgente de marcos regulatórios, participação de comunidades vulnerabilizadas no design de tecnologias e formação crítica de gestores e profissionais de saúde para o uso ético e equitativo da IA na esfera pública.
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